30 de abril de 2012

VINHO, CÂNCER E IDONEIDADE - Franklin Rumjanek

Acusação de fraude contra defensor do efeito do vinho no combate ao câncer coloca potencial terapêutico da substância sob suspeita e prejudica outras linhas de pesquisa baseadas nos resultados contestados. (foto: Flickr/Andrew Albertson – CC BY-NC-ND 2.0)
Um ritual praticamente universal ao ingerir bebidas alcoólicas é, antes da libação, brindar os presentes desejando-lhes saúde. Em especial, o consumo de vinho parece justificar tal costume. Dentre as virtudes dessa bebida, têm sido relatadas na literatura científica atividades de proteção contra o câncer além de doenças ligadas ao sistema cardiovascular.

No vinho, o princípio ativo seria o resveratrol, um polifenol que exerceria seus efeitos benéficos por meio da regulação da produção de radicais livres, potenciais agentes carcinogênicos. Radicais livres em excesso são, junto com inúmeros outros compostos, reconhecidamente agentes que podem deflagrar o processo de formação de tumores.

Os verbos estão conjugados no futuro do pretérito porque a recomendação da ingestão de vinho como um procedimento terapêutico recebeu recentemente um golpe sério. 

Um dos principais advogados favoráveis ao resveratrol, o cirurgião Dipak K. Das, da Universidade de Connecticut (EUA) e editor de um importante periódico especializado na área de radicais livres, foi acusado de fraude. Das tem centenas de publicações, mas aquelas que o traíram são 26. 

As acusações se basearam principalmente em resultados que, segundo os analistas, revelaram manipulação por meio de programas utilizados no processamento de imagens. Em outras palavras, Das ‘fabricou’ resultados que apoiariam suas ideias. Naturalmente, sua carreira científica está encerrada e possivelmente também a de seus colaboradores mais próximos. Mas isso não resolve o problema.

Talvez o dano maior tenha sido o efeito cascata resultante do impacto das publicações sobre outros grupos científicos que, em função da leitura de tais textos, nortearam seus próprios projetos, vigentes ou potenciais. Incluam-se aí também as comunidades médica e farmacêutica que investiram, ou teriam investido, pesadamente em protocolos, visando consagrar o resveratrol (e o vinho) como uma arma significativa do restrito arsenal anticâncer.

A fraude de Das não significa, entretanto, que o resveratrol deva cair em desgraça e ser abandonado. Outros grupos de prestígio já produziram resultados encorajadores, mas fica agora a pergunta sobre o que pode ser aproveitado em termos de resultados desde 2002, quando começaram as suspeitas sobre os trabalhos desse médico.

Um excelente artigo publicado na revista Nature (v. 483, 01/03/12) por Barbara Dunn, diretora do programa de prevenção ao câncer do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, discute de maneira muito clara o estado da arte sobre a pesquisa e as novas estratégias de tratamento do câncer. Dunn dá destaque especial ao resveratrol como uma avenida importante a ser percorrida pelos pesquisadores e como alento a todos aqueles preocupados com o aumento da freqüência de incidência do câncer.


Mesmo com as denúncias, as pesquisas devem continuar seguindo o caminho do vinho e do resveratrol. Além dele, ganha força o estudo de outros fitoquímicos que poderiam ajudar a tratar o câncer sem provocar os efeitos colaterais da quimioterapia. (foto: Flickr/ Isabelle Fontrin – CC BY-NC 2.0)
Aliás, segundo Dunn, o câncer parece ser bem mais antigo que o vinho, já que ossos fossilizados de dinossauros exibiam evidências de tumores (pode-se afirmar que o vinho é quase tão antigo quanto a humanidade). Assim, lendo o texto de Dunn no cenário pós-Das, fica a dúvida sobre a validade potencial ou de fato do resveratrol e de outros produtos de plantas, o que ilustra eloquentemente que os malefícios da fraude científica transcendem as paredes do laboratório. 

Além do resveratrol, há no momento uma nítida tendência a fortalecer a fitoquímica como maneira de descobrir novos adjuvantes da quimioterapia em câncer. Certas pimentas, por exemplo, contêm compostos que matam seletivamente as células tumorais, o que é o objetivo maior dos oncologistas. Seria possível com tais produtos evitar os efeitos colaterais da quimioterapia que muitas vezes produzem sintomas piores que o próprio tumor.

Embora a fraude em ciência não seja endêmica ainda, o exemplo de Das vai, infelizmente, complicar ainda mais o processo de publicação científica. Não só a competência dos pesquisadores será julgada, mas também a sua honestidade. Na verdade, alguns periódicos já fazem isso lançando mão de sofisticadas ferramentas de informática.

Franklin Rumjanek - Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Extraído do sítio Revista Ciência Hoje

O AUTOR ANGOLANO VALTER HUGO MÃE FALA SOBRE DESAFIOS DA LITERATURA ENTRE BRASIL E PORTUGAL - Mayara Brilhante

Sobre suas obras e sua repercussão na literatura, valter hugo mãe revelou ainda que não pretende ser um revolucionário, mesmo com todas os elogios e prêmios recebidos.

O autor angolano Valter Hugo Mãe durante bate-papo no "Tacacá Literário", na I Bienal do Livro AM. Foto: Bruno Kelly

A presença do autor angolano Valter Hugo Mãe movimentou a noite deste domingo (29) na I Bienal do Livro Amazonas. Em um bate-papo descontraído no espaço "Tacacá Literário", o autor falou a respeito dos desafios da língua portuguesa na literatura e como unir um diálogo consistente entre Brasil e Portugal, sua terra adotiva.

“O Brasil é muito ‘continental’. Cada região é única e possui características próprias. É muito complicado definir o que os brasileiros querem, por outro lado Portugal também é assim. Os portugueses perguntam o que os brasileiros pensam deles e vice versa. Acho que a imagem histórica de Portugal fez com que os brasileiros de alguma forma se igualassem ao mundo europeu”, disse o autor.

Sobre suas obras e sua repercussão na literatura, valter hugo mãe revelou ainda que não pretende ser um revolucionário, mesmo com todas os elogios e prêmios recebidos. “Não sou brilhante o suficiente para estreitar os laços e resolver as diferenças entre os países, mas gosto muito do Brasil e admiro os grandes nomes da literatura local. Escolhi Portugal como minha terra adotiva e vejo que os dois povos estão unidos neste sentido. Há uma admiração e influência mútua”, revela.

Em sua última obra “o filho de mil homens” (2011), Valter Hugo Mãe usou a tristeza como inspiração. “Não tem como dizer que a vida é bela. É preciso nutrir o respeito profundo com a dor em cima da qual construímos a felicidade. Aquilo que nos faz sofrer é capaz de construir coisas boas”, conta.

O autor revelou também que nunca está totalmente satisfeito quando escreve um livro. “Tenho muita dificuldade quando escrevo um livro. Nunca estou convencido o bastante com minhas obras, não sei se elas estão totalmente prontas ou se posso fazer melhor”, conclui valter.

Valter Hugo Mãe, além de autor é artista plástico, DJ e vocalista da banda “O Governo”, mas escolheu a literatura como sua paixão e por suas obras de qualidade, recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio internacional José Saramago, em 2007, o principal da língua portuguesa, com o livro “nosso reino” (2004) e “o apocalipse” (2006).


Extraído do sítio A Crítica

TARSILA DO AMARAL (90 ANOS DA SEMANA DE 22)

Nasceu na cidade paulista de Capivari, perto de Sorocaba, filha do fazendeiro José Estanislau do Amaral. Cresceu na fazenda de Santa Teresa do Alto, município de Jundiaí, na fazenda Bela Vista, e na fazenda São Bernardo, em Capivari. Por isso Oswald de Andrade a chamava afetivamente de “caipirinha vestida por Poiret”. Viajou com a família para a Europa, onde estudou no colégio Sacré Coeur de Marie em Barcelona.

Tarsila do Amaral - Operários
Do seu primeiro casamento com o Dr. André Teixeira Pinto, nasceu sua filha Dulce, fica em São Paulo com idas regulares a fazenda. E 1917 estuda desenho com Pedro Alexandrino, em São Paulo. Em 1920 embarca para Paris onde estuda na Academie Julian. Em 1921 viaja para a Espanha e Inglaterra. Em 1922 já expõe tela o “Salon Deficiel Des Artistas Français”. Regressa em junho deste ano. Integra-se no grupo Modernista de São Paulo através de Anita Malfatti, formando o Grupo dos Cinco, com Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti Del Picchia e Anita.

Tarsila estava na Europa quando da Semana de 22, mas através de carta enviada por Anita Malfatti contando todos os detalhes. Ela se considera como participante daquele importante evento cultural que marcou sensivelmente a vida cultural brasileira.

Com influência dos ventos do Modernismo Parisiense Tarsila quis fazer um quadro que assustasse Oswald (com quem se casou no ano de 1926) e assim aconteceu a pintura desta obra prima que teve o titulo de “ o Aba- Puru” que era uma figura monstruosa, a cabecinha, o bracinho fino, perna compridas, enormes, um cacto , sol.

Eu quis dar um nome selvagem ao quadro e encontrei em um dicionário da língua indígena, esta palavra que quer dizer antropófago, disse ela, Simbolizando assim o movimento antropofágico que marcou a nossa cultura no idos da década de 20 do século passado.

Tarsila foi a primeira Dama da Arte Brasileira. O seu currículo é invejável e com um estilo inconfundível, participando de exposições coletivas, individuais, tanto no Brasil como na Europa, tendo acontecido exposições retrospectivas.


Tarsila do Amaral - Abaporu
Os anos passaram, em certo momento, em sua cama, no apartamento onde residia, no bairro de Higienópolis (São Paulo), pois foi acometida por um desvio de coluna que a levou a ter uma vida reclusa e era assistida pela sua fiel enfermeira-secretária D. Anete, disse: “ Sou otimista e tenho muita fé: Ainda quero, ver a Sala Tarsila no Palácio Boa Vista em Campos do Jordão, que reúne minhas melhores obras, ou assistir um concerto de minha velha amiga, Guiomar Novais, só que agora ela não tem mais aquela cara bem brasileira, parece uma alemãzinha…

Não perguntamos a idade de Tarsila. “Artista não tem idade” disse ela, mas espero chegar aos 100 anos. Vemos assim que, assim como Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Lasar Segal, Tarsila também é ligada a Campos do Jordão, grupo este que revolucionou a arquitetura, pintura, música, literatura brasileira, dando assim um novo rumo a vida cultural brasileira.

Extraído do sítio Jornal O Povo

BIENAL DE BERLIM APOSTA NO VIÉS POLÍTICO E CONCLAMA AO PROTESTO - Silke Bartlick

Bienal de Berlim aposta no viés político e conclama ao protesto
A 7ª Bienal de Berlim deixa suas salas de exposição serem tomadas pelo movimento Occupy, cola palavras de ordem nas paredes e convida ao debate. Uma mostra que quer ser política e incitar à indignação.

O artista polonês Artur Zmijewski, curador da 7ª Bienal de Berlim, propõe uma série de questões na mostra recém-inaugurada na capital alemã: do que a arte é capaz no espaço político? Ela tem ali uma função? E pode mudar a realidade? Ela pode ser crítica, útil, política? Em busca de respostas a essas perguntas, Zmijewski convidou cerca de 30 artistas de vários países, todos autores de obras com um "viés político".

Até 1º de julho, eles darão provas disso durante a Bienal de Berlim, com obras que explicitam suas visões de mundo e em alguns casos fazem críticas ao estado das coisas. E eles fazem isso no centro da sociedade, ou seja, no espaço público, confrontando assim suas posições com observadores com os quais, de outra maneira, possivelmente não teriam qualquer interseção.

'Key of return', na Bienal de Berlim
O artista polonês Lukasz Surowiec, por exemplo, mandou plantar em Berlim, no segundo semestre de 2011, bétulas vindas dos arredores do ex-campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. As árvores foram plantadas em parques, pátios de escolas e em lugares que têm uma ligação direta com o Holocausto.

A proposta de Surowiec é manter viva a lembrança dos crimes atrozes do nazismo, além de resgatar um projeto anterior: a obra de arte 7.000 Carvalhos, de Joseph Beuys, que também usa a paisagem natural, tendo sido apresentada ao público em 1982 na documenta 7. No decorrer de muitos anos e com o auxílio de muitos ajudantes, Beuys plantou carvalhos em diversos locais de Kassel, a cidade-sede da documenta: uma intervenção artística e ambiental no espaço urbano, que reage ao processo de urbanização descontrolada.

Arte eficaz

A obra de Beuys se tornou há muito parte integrante da cidade, tendo modificado a imagem dela, além de incitar discussões constantes entre os moradores. A incompreensão inicial com relação ao projeto foi se esvaindo a cada nova árvore plantada, fazendo concluir que a arte pode ser crítica, útil e também política. Além de poder provocar, gerar reflexão, mudar o pensamento e, desta forma, modificar imperceptivelmente a realidade.

Os efeitos da arte fizeram-se notar de diversas maneiras no decorrer dos séculos, embora uma postura explicitamente crítica só tenha passado a existir de fato depois da Revolução Francesa. Até então, a arte tendia à idealização, resgatando motivos, por exemplo, da Bíblia, da vida na corte e da burguesia abastada. Só depois é que os aspectos omitidos da vida e da realidade passaram a ser tratados pelos artistas. Foi quando eles começaram a apresentar imagens nunca antes vistas.

Movimento Occupy: convidado da Bienal de Berlim
O espanhol Francisco de Goya (1746 - 1828), por exemplo, pintou e desenhou implacavelmente a pobreza, a miséria e a guerra, revelando as fragilidades de seu tempo. Já o francês Gustave Courbet (1819 - 1877) chocou a sociedade parisiense com pinturas de pessoas simples executando seus trabalhos. E Honoré Daumier (1808 - 1879) entrou diversas vezes em conflito com as autoridades por ter reproduzido sarcasticamente, em caricaturas, a vida burguesa e especialmente a Justiça de sua época.

Oposição através da arte

Um dos primeiros alemães a visualizar em suas pinturas uma crítica às relações de poder foi Adolf Menzel (1815 - 1915). Sua obra Aufbahrung der Märzgefallenen (Velório dos mortos em combate do mês de março) mostra os caixões dos revolucionários assassinados pelos militares durante uma batalha em Berlim. Com isso, o artista deu rosto, atenção e espaço à resistência.

'Indignem-se' na entrada da Bienal
O século 20, com suas falhas, abismos, barbaridades e descaminhos, provocou novas posições artísticas de oposição: a arte se tornou antimilitarista e anticapitalista, ridicularizando o pequeno-burguês careta e a decadência e se opondo às atrocidades do fascismo. E as reações a essa arte foram desde a indignação em alto e bom som, passando por insultos públicos até a exclusão, denúncia e expulsão de artistas, ocorridas especialmente durante o período nazista.

Novas intervenções

Duas décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a arte adquiriu novas dimensões, passando a não se manifestar mais apenas em pinturas, esculturas, fotos e desenhos, mas também em formas temporárias, como intervenções no espaço público. E dando a qualquer um a liberdade de se tornar uma "escultura temporária", que interage com a sociedade ou se opõe a ela por meio de manifestações contra o esquecimento, a corrida armamentista, as violações dos direitos humanos, a guerra ou a destruição do meio ambiente.

No início do século 21, esta arte acompanhou por exemplo a cúpula do G8 na alemã Heiligendamm, onde foi criada uma aldeia temporária de casebres com a qual se falava dos problemas do mundo com um certo humor. A força de cada ação individual tem naturalmente seus limites, como se a avalanche de imagens da era da informação já tivesse há muito causado no observador uma certa saturação.

Parlamento das organizações terroristas
A Bienal de Berlim quer agora provar que isso pode ser diferente. Segundo o curador, a mostra quer apresentar uma arte que "é, de fato eficaz, que influencia a realidade e abre um espaço no qual se pode fazer política". Por isso, as paredes da entrada para o salão de exposições da Bienal foram cobertas por trechos em vermelho do panfleto Indignem-se, de Stéphane Hessel. E a curadoria deixou o próprio salão de exposições a cargo do movimento Occupy – com sacos de dormir, sofás e cartazes contra nazistas e capitalistas.

A Bienal oferece pódios de discussão e conecta redes de ativistas. Ela lhes possibilita organizar a resistência em diversos países. E apresenta trabalhos que colocam o dedo em várias feridas: nos campos de refugiados, nos mortos pelas drogas, no comércio, no desemprego entre jovens, no extremismo, no Holocausto. Assim a capacidade de resistência do público é testada. Esse público internacional observa, conversa, pondera, toma um latte macchiatto e ri. Será que assim a realidade pode ser modificada? É esperar para ver.

Extraído do sítio da Deutsche Welle

APRESENTAM NA COLÔMBIA LIVRO SOBRE FIDEL CASTRO


Bogotá, 30 abr (Prensa Latina) - O livro Fidel Castro: Guerrilheiro do Tempo, sobre a vida do líder da Revolução cubana, será apresentado hoje nesta capital por sua autora Katiuska Blanco, no contexto da 25 Feira Internacional do Livro.

A apresentação contará com a participação do poeta, ensaísta e jornalista colombiano William Ospina, e assistirão destacadas personalidades da cultura e a política da nação sul-americana, bem como representantes de organizações sindicais e membros dos grupos de solidariedade com Cuba.

Também estarão presentes os membros do corpo diplomático cubano acreditado aqui, encabeçado pelo embaixador Iván Mora.

Ontem Blanco percorreu as ruas do centro da capital colombiana, por onde há mais de 64 anos percorreu o então jovem Fidel Castro.

Acompanhada por membros da Embaixada de Cuba na Colômbia e colombianos amigos da ilha, a jornalista e escritora cubana internou-se em um percurso que qualificou de extraordinário ao se aproximar dos cenários históricos que viveu o líder cubano durante o Bogotazo.

Com esse nome batizou-se um período de protestos, desordens e repressão que seguiram ao assassinato de Jorge Eliécer Gaitán em 9 de abril de 1948 no centro de Bogotá.

A escritora afirmou em declarações à Prensa Latina que durante anos escutou e leu sobre o referido acontecimento histórico e seus palcos.

"Tem sido um percurso extraordinário, algo com o que de alguma maneira todos os que têm tido que estudar cenários históricos e não puderam percorrê-lo sonham. E essa é a sensação que eu tenho hoje", expressou.

Assegurou que ao transitar pela história que recolhem as ruas desta cidade pensou nas vivências que Fidel Castro teve então, pois de alguma maneira -disse- tudo o que o Bogotazo foi em sua vida o marcou e o definiu para coisas que depois ele empreenderia com a Revolução cubana.

Aqui também aprendeu coisas que não deviam suceder em uma explosão social ou em uma revolução, explicou depois do qual agregou que durante todo o percurso pelo centro da cuidem teve muito presente a Fidel Castro; "E isso é uma emoção grande".

Por outra parte, Blanco teve a oportunidade de conhecer Luis Emiro Valencia, que foi secretário de Gaitán e entrevistou o líder da Revolução cubana em 1961 em Havana.

Depois desse encontro, Valencia publicou um livro com o título de "36 horas com duas personagens da história: Fidel Castro e a Revolução cubana", o qual obsequiou a sua interlocutora, que por sua vez lhe entregou um exemplar de Fidel Castro: Guerrilheiro do Tempo.

Ambos, na intimidade do apartamento de Valencia, situado em frente ao Eixo Ambiental em Bogotá e decorado com fotografias e livro, trocaram episódios e impressões a respeito de Fidel Castro e os acontecimentos do Bogotazo.

Posteriormente Valencia, com uma ágil energia de suas nove décadas de vida, acompanhou Blanco em seu percurso, um gesto que a escritora qualificou de extraordinário ao ser ele um da testemunha diretos dos acontecimentos de 9 de abril de 1948.

Fidel Castro: Guerrilheiro do Tempo recolhe as conversas de Blanco com o líder da Revolução cubana, nas quais aparecem continuamente suas ideias e pensamentos.

No texto apreciam-se momentos importantes da infância e a adolescência do líder cubano, a relação familiar e sua habilidade para explicar-se a posição daquelas pessoas com as quais compartilhou momentos de infância e juventude.


Extraído do sítio Agência Prensa Latina

29 de abril de 2012

LIVROS IMPRESSOS AINDA DOMINAM O MERCADO - Luar Maria Brandão

Livros impressos ainda dominam o mercado. Pesquisas dão conta de que o livro de papel ainda é a forma de leitura preferida dos brasileiros. Mas já são 9,5 milhões de leitores digitais no Brasil, 22% deles estão no Nordeste. 

Os leitores digitais representam apenas 5% da massa de 88 milhões de leitores no Brasil. Foto:André Salgado
Uma das discussões que mais perambulam na sociedade moderna é: o livro vai ou não acabar? Para os autores, editores e livreiros entrevistados, o livro digital é tendência, ainda que não tenha deslanchado no País, mas o livro impresso não vai se extinguir. Vai ser, no máximo, um “artigo raro”, segundo eles. Mas é de olho nessa tendência que as livrarias e as editoras já têm oferecido o conteúdo digital.

De acordo com a 3ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, o Brasil tem 9,5 milhões de leitores digitais, sendo que 22% deles estão concentrados no Nordeste. “Hoje, a região é a segunda maior do País, perdendo apenas para o Sudeste, o que mostra o interesse em conhecer as novas tecnologias”, afirma, em nota, a presidente do Instituto Pró-Livro, Karine Pansa.

Ainda que de forma quantitativa o número de leitores digitais seja considerável, o total representa só 5% da massa de 88 milhões de leitores do Brasil, segundo a pesquisa. Para o proprietário da Livraria Acadêmica, há 25 anos no mercado de Fortaleza, Luciano Gomes, o comprador de livro quer ter a propriedade do livro. “Ele quer pegar, cheirar, marcar, formar a biblioteca dele e até deixar para outras gerações”, argumenta Gomes.

A escritora e professora Tércia Montenegro também acredita que têm sido os leitores os condutores nessa manutenção do livro impresso como grande gerador de renda do setor livreiro. “Tem uma questão afetiva. O contato com o papel é uma coisa que está na civilização há muito tempo. De repente, as gerações futuras já não vão estranhar. Já vai ser natural para elas lerem no suporte virtual”, afirma.

Para Tércia Montenegro, basta mais uma década para que os livros digitais sejam a maioria. Segundo a pesquisa do Instituto Pró-Livro, apenas 6% dos leitores que já tiveram contanto com e-books (livros digitais) disseram não ter gostado da experiência; 54% gostaram muito e 40% gostaram um pouco.

Passos digitais - Já com vistas a esse público, o empresário cearense Dairan Temoteo, 34 anos, resolveu investir na área: montou uma empresa para a digitalização de conteúdos. “A Mob Devel desenvolve aplicativos para tablets. Temos clientes em várias cidades do Brasil. O foco é na digitalização de conteúdo para a educação”, afirma Dairan.

Já foram 21 aplicativos publicados, a maioria deles é de apostilas de cursos a distância, de simulados para o Enem e apostilas para concurso público. “Digitalizar um conteúdo pode variar entre R$ 20 mil e R$ 30 mil. Parece caro, mas o retorno é imediato. As pessoas compram. Se os leitores digitais, tablets ficarem mais baratos, não tenho dúvida de que o conteúdo digital será maioria”, acredita o empresário. (Luar Maria Brandão)

Números: 9,5 milhões é o número de leitores digitais no Brasil.

Extraído do sítio O Povo Online

CULTIVO UNA ROSA BLANCA - José Martí



Cultivo una rosa blanca,
en julio como en enero,
para el amigo sincero
que me da su mano franca.

Y para el cruel que me arranca
el corazón con que vivo,
cardo ni ortiga cultivo:
cultivo una rosa blanca.

Tradução de Anderson Braga Horta: CULTIVO UMA ROSA BRANCA: Cultivo uma rosa branca, / em julho como em janeiro, / para o amigo verdadeiro / que me dá sua mão franca. // E para o cruel que me arranca / o coração com que vivo, / cardo, urtiga não cultivo: / cultivo uma rosa branca.

JOSÉ MARTÍ (1853–1895) — Patriota cubano, pan-americanista. Como poeta, foi precursor do Modernismo, com grande influência nas letras hispano-americanas. Entendia a literatura como “expresión y forma de la vida de un pueblo”, defendendo uma poesia com “raíz en la tierra, y base de hecho real”.


Extraído do sítio Antonio Miranda

'A OBRA DE PESSOA É UM TESTAMENTO À ESPERA DE SER ABERTO' - Telma Miguel


São quase 700 páginas de uma obra monumental que começou com uma ambição muito simples. «O livro sobre o Fernando Pessoa que eu queria ler ainda não estava escrito», conta José Paulo Cavalcanti Filho, advogado pernambucano muito bem sucedido, ex-ministro da Justiça de José Sarney e que dedicou «quatro horas todos os dias durante oito anos» a perseguir o fantasma de Fernando Pessoa e a fazer o retrato minucioso e exaustivo do homem que o Brasil idolatra e Portugal nem tanto.

'Fernando Pessoa – uma quase auto-biografia' (Porto Editora), obra recentemente lançada em Portugal e editada no ano passado no Brasil, venceu este mês, «contra 73 biografias inscritas», o Prémio da Bienal de Brasília, um dos três grandes prémios editoriais brasileiros.


Até ao fim do ano falta anunciar o Jabuti e o da Academia de Letras Brasileira. Desta nova biografia, mais uma vez feita por um estrangeiro, sobressai uma teoria eventualmente polémica: a vida e a obra em Fernando Pessoa confunde-se mais do que aquilo que se imaginava, porque ele escreveu sobre o que estava à sua volta.

O livro do brasileiro, um coleccionador obsessivo de tudo o que existe de Pessoa, parte de uma investigação quase detectivesca e lê-se como um romance. Nele, Cavalcanti contabiliza 127 heterónimos criados pelo poeta (alguns meros esboços), inclui receitas culinárias, escrutina o romance com Ofélia, a criação de heterónimos, explica os dias de Pessoa passo a passo, quase cronometrados, cruzando esses dias com a criação literária e com a História, desde o 13 de Junho de 1888 em que nasceu no Largo do São Carlos, em Lisboa, até à morte no Hospital São Luís dos Franceses, e produz revelações.

José Paulo Cavalcanti Filho veio 30 vezes a Portugal no decurso das investigações. Um projecto de peso que agora está disponível para ser absorvido e julgado pela pátria de Pessoa.

Porque fez este livro?

A obra de Fernando Pessoa está muito bem estudada por um conjunto de autores, sobretudo portugueses. Mas o homem, eles abandonaram. Octavio Paz diz que perante a insignificância da vida, a obra é toda a vida. Isso é verdade, mas não inteiramente. Porque por trás da obra há um homem que trabalha, que sonha, que tem desassossegos.E quem era ele? Fui à procura desse fantasma. Onde está a tabacaria da Tabacaria? Sempre quis saber essas coisas. Em conversa com a editora disse: eu quero ler um livro que não existe. Então vamos fazer esse livro, disse ela. Entre o vamos e a publicação passaram dez anos.

Dez anos intensivos?

Mudei a minha vida.Durante oito anos, trabalhei quatro horas todos os dias, ninguém vai acreditar. Nos jornais só lia as manchetes e a página de opinião, deixei de sair do escritório para almoçar e evitava o trânsito. Durante 30 anos sempre li depois do jantar e tocava piano 15 minutos. Deixei isso. E trabalhava até não conseguir ler, na obsessão e na alegria. Cada pequena descoberta era um êxtase. Há dois grupos de pessoas: os felizes e os desesperados. Os felizes marcam uma data para acabar e acabam, os desesperados querem sempre fazer o seu melhor, até ao impossível. Eu sou desses.

Como recolheu a informação?

Há muitos textos e depois tive acesso a fontes menos valorizadas, como os jornais e depoimentos de muita gente, anónimos...

Entrevistou o filho do barbeiro que no último ano ia ao quarto dele fazer-lhe a barba...

Com ele e com o Carlos bate-chapas passei tardes recordando histórias. Contavam-me a maneira de andar, os hábitos. Fui tirando das cinzas pequenos factos para construir uma imagem. E o Ernesto Martins, dono da Biblarte, um alfarrabista, contou-me uma história que foi fundamental. Numa tarde de muito calor, convidou-me para ficar com ele a conversar enquanto durante uma hora e meia eu fumava um charuto. Ele contou-me que no tempo do anterior dono, Eliezer Kemenezk, um judeu russo a quem o Martins comprou o negócio, o Pessoa ia para lá aos fins de tarde, completamente embriagado, dormir uma sesta para aguentar as noitadas. Deitava-se numa cave mínima numa cama de arames. O russo pagava-lhe 20 escudos para ele traduzir pequenos poemas que escrevia. E eu perguntei: ‘Martins porque você nunca contou isso?’ Ao que ele respondeu: ‘Porque nunca ninguém me perguntou’. Uma resposta tipicamente portuguesa, o tipo de resposta que fui encontrando nas minhas pesquisas. No livro assinado pelo Kemenezky, Alma Errante, percebe-se que dos 55 poemas, de certeza 37 são do Pessoa. Um livro a mais do Pessoa. Imagina!

Qual foi a fonte mais importante?

A maior de todas descobri num momento mágico. É a seguinte: 100% dos textos do Pessoa eram criados com o que estava à volta dele. A obra de Pessoa é um testamento esperando que alguém o desvende. Que esperou 70 anos. ‘Se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez eu fosse feliz’, escreveu. Essa é uma ideia recorrente na literatura: ‘Se eu tivesse uma vida mais simples seria feliz’. Mas Pessoa não escreve de forma abstracta. Era só procurar a filha da lavadeira. E havia a lavadeira Irene, que tinha uma filha, Guiomar, por quem Pessoa se sentiu atraído.

Todas as personagens que criou nos poemas têm existência real?

Estão em volta dele, ou são inspiradas nele, ou são amigos, ou são admirações literárias. O Álvaro de Campos, o seu heterónimo mais famoso, tinha este apelido porque um dentista que o Pessoa achava que era um sósia seu chamava-se Ernesto de Campos. Álvaro de Campos é de Tavira, terra do avô paterno de Pessoa, nasceu (de acordo com a biografia que o poeta lhe atribuiu) a 15 de Outubro, que é a data de nascimento de Nietzsche e Virgílio. E era engenheiro naval, tal como o genro da sua Tia Anica, com quem o poeta viveu uns tempos. E Álvaro de Campos escreve como se fosse homossexual, porque o próprio Pessoa tinha uma natureza homossexual. Só que a partir do momento em que Pessoa conhece Ofélia Queiroz, e começa um namoro com ela, os textos de Álvaro de Campos vão-se transformando. A certa altura, o engenheiro naval aparece casado, com a mulher ao lado a fazer tricô. Quando você não conhece a vida dele não percebe essas ligações.

Tem dito, e escreveu no livro, que Pessoa é um poeta sem imaginação. Nesse caso como é que se compreende o génio?

Digo isso como uma provocação, porque Pessoa é um génio absoluto. Ele compõe é com o que tem por perto, cria um delírio poético à volta disso.

Outra coisa que se percebe é que até para o seu tempo ele era muito pouco viajado. Desde que regressou de Durban só saiu uma vez de Lisboa, para ir a Portalegre, e poucas deslocações a Cascais.

Ele viveu em quatro quilómetros quadrados. Porquê, não sei. Talvez porque fosse enormemente discreto e tímido. E era também muito delicado, não gostava de aborrecer ninguém.

E, de certa forma, um homem vaidoso, segundo descreve.

É irónico. Ele era míope, com receita médica de 12 dioptrias, mas usava óculos de três para não ficar com os olhos pequenos por causa das lentes grossas, e por isso aceitava ver tudo desfocado ao longe. Mandava fazer os fatos nas alfaiatarias mais caras de Lisboa, embora não tivesse dinheiro para os pagar. Usava um anel de prata com o brasão da família. Há um texto em que se fala de uma sapataria Contexto. Pedi ao historiador português que contratei para fazer pesquisa, o Victor Eleutério, para procurar essa sapataria. O Victor dizia que essa sapataria nunca existiu. Mas insisti e ele procurou todas as referências na Baixa. Eu tinha a certeza que essa sapataria teria existido e era na Baixa porque, embora sempre falido, ele não comprava na periferia. Só na zona mais cara. Então a sapataria era a Contente, a mais famosa de Lisboa nos anos 20. O nome tinha sido impresso com uma gralha.

Descobriu mais imprecisões biográficas desse género?

A tabacaria de que ele fala diziam que era a Morgadinha. Fui ver na conservatória e a Morgadinha tinha sido criada em 1958 e o poema Tabacaria escrito em 1928. E o poema não foi escrito na casa onde vivia, mas na mansarda da casa Moitinho, onde ele fazia serviços de correspondente estrangeiro.

E como causa de morte, também acrescenta um dado novo...

Dizia-se que ele morreu de cirrose. Eu criei uma junta médica. Fiz um calhamaço com todos os textos em que ele falava das dores e doenças e reuni os professores de Medicina mais importantes da minha terra, para sessões aos sábados na minha casa. Foram reuniões mastodônticas examinando e discutindo toda a documentação. Até que se chegou à conclusão mais plausível de que Pessoa morreu de pancreatite. Reuni com psicanalista para tentar saber se ele era louco. Fiz tudo para chegar o mais perto possível da verdade.

E a questão sexual? Pessoa morreu virgem?

É o mais provável. Ele nunca teve mulher, ou homem. Acho que era mais ou menos óbvia a natureza homossexual, mas não existe uma foto, um depoimento, nada que o explicite. Quem sabe se hoje, com outros padrões morais fosse diferente. No entanto, ele tinha vários amigos homossexuais assumidos e publicou com dinheiro dele, na Olissipo, livros de dois: o Raul Leal e o António Botto.

Também refere que ele tinha vergonha do próprio corpo e qualquer relação não seria nunca consumada.

Tenho a minha explicação, que está escrita no livro. Mas a minha mulher pediu-me para omitir isso nas entrevistas. Procurei a exactidão humanamente possível. Por exemplo, duas cartas de Ofélia foram censuradas pela família. Nunca foram publicadas.

Chegou a vê-las?

Dediquei 15 dias a descobrir as cartas. Era importante lê-las, podia haver um assunto delicado, um aborto, por exemplo. Mas era, tão só, ela a contar que tinha passado mal a noite, com aquela ‘doença mensal’ das mulheres. Eu quase me mato.. quando vi que era assim tão irrelevante. Mas tinha que ler, então há duas cartas censuradas e ninguém vai ler?

Fez também uma busca das cartas escritas a Sá-Carneiro.

Mário de Sá-Carneiro escreveu 216 cartas a Pessoa, que são conhecidas, e Pessoa escreveu-lhe, para Paris, de 100 a 150, que nunca foram encontradas. Um amigo em Paris falou com a actual proprietária da pensão onde Sá-Carneiro se suicidou, uma marroquina de 82 anos. A dona da pensão disse-lhe que tinha uns papéis numa língua que não percebia. Corri para Paris. Fui ver as cartas e não eram. Já pensou se fossem? Ninguém foi ver. As pessoas são muito descansadas. É preciso um obsessivo como eu. (risos)

Mas houve acasos mais felizes.

Há uma história que me foi comunicada, como por destino, por um director da Globo que veio a Portugal em 1985 tentar entrevistar Ofélia, pelos 50 anos da morte de Fernando Pessoa. Ofélia não aceitou dar entrevista, mas contou uma história maravilhosa, pedindo que ela só fosse divulgada depois de morrer. E esse director da Globo acabou por nunca ter encontrado uma oportunidade de publicar isso. A história que conto no livro é, segundo as próprias palavras de Ofélia, o capítulo final do romance dela com Pessoa. Uma coisa de um romantismo incrível. Que é a de ela ter passado toda a noite segurando a mão dele, já morto no hospital, falando de tudo o que tinha ficado por dizer. Sozinhos os dois até ao nascer do dia.

Ideologicamente, ao contrário de um certo mito que surgiu após o 25 de Abril, Pessoa não era fascista...

Os poemas que ele dirigiu a Salazar são arrasadores. Há um famoso, escrito pelo heterónimo que criou, Um Sonhador Nostálgico do Abatimento da Decadência, que é uma crítica impressionante.

A partir de certa altura Pessoa caminhou para a autodestruição. Recusou o amor, fechou-se nele próprio e bebeu desesperadamente. Porquê?

Podemos discutir se ele queria mesmo matar-se. Mas de certeza já dava muito pouco valor à sua vida. O momento em que se percebe que ele desaba foi quando perdeu o concurso para o Museu de Cascais, em 1932. Nessa altura devia mais de um ano, bebia muito. Chegou a ter delirium tremens. Há um estudo de Francisco Ferreira em que foi feita uma contabilidade do consumo diário de álcool.

Chegou a comprar alguma coisa do Pessoa?

Eu tenho tudo. Só não tenho os manuscritos, porque o Governo português nos leilões exercia o direito de preferência. Mas tenho todas as primeiras edições das obras, revistas, os artigos de jornais, os livros que publicou na Olissipo. Tenho uma Mensagem anotada por ele, tenho todos os manifestos, os objectos pessoais, colecção de selos, a biblioteca pessoal dele, fotos dele e da família. Tenho os óculos que usava. E tenho o retrato que Almada Negreiros fez, no dia do funeral, e que ofereceu a Ofélia Queiroz. A arca, que é actualmente de um particular, gostava de comprar para doar à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

telma.miguel@sol.pt

Extraído do sítio Sol.pt

SUPREMO ESPANHOL ANULOU CONDENAÇÃO DE JOSÉ SARAMAGO

O Tribunal Supremo espanhol anulou uma sentença de 2010 que condenava o escritor português José Saramago a pagar 717.651 euros em impostos, considerando que foram excedidos prazos para a fiscalizção da atividade contributiva do autor.

José Saramago - Foto: Leonardo Negrão/Global Imagens
Em abril de 2010, dois meses antes de morrer, José Saramago foi condenado por um tribunal superior espanhol a pagar ao Tesouro de Espanha impostos relativos aos anos fiscais entre 1997 e 2000, no valor de 717.651 euros.

Na altura, a justiça espanhola considerou que o escritor tinha residência permanente em Espanha, no município de Tias (Lanzarote) e, portanto, devia prestar contas ao tesouro espanhol e não ao português.

O advogado do escritor, Andrés Sanchez, anunciou em 2010 que iria recorrer da sentença para o Tribunal Supremo, defendendo, em declarações à agência Lusa, que "o centro de interesses vitais e económicos de Saramago" era em Portugal, "onde sempre apresentou as suas declarações fiscais".

Agora o Tribunal Supremo de Espanha anulou a sentença de condenação do nobel da Literatura, entendendo que as finanças "superaram claramente" o prazo máximo de doze meses para o processamento das atividades inspetoras.

De acordo com a agência noticiosa espanhola Efe, o Supremo Tribunal afirmou que José Saramago "teve uma atitude claramente obstrutiva", mas essa não foi a única razão para a demora das finanças em atuar.


Extraído do sítio Jornal de Notícias

EDITORAS DOBRAM FATURAMENTO



Sabe quantos livros foram vendidos no Brasil, em 2010? Foram 437.945.286 exemplares, que resultaram num faturamento de mais de R$ 4.505.918.296,76, segundo levantamento do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). O montante é mais que o dobro dos R$ 2,1 bilhões faturados em 2002.

“Temos, sim, vendido mais livros. Talvez, por causa da ascensão das classes sociais no Brasil e também por causa das grandes compras dos governos, tanto de livros didáticos quanto os de literatura também”, afirma a diretora de Literatura da Editora Moderna, Márcia Carvalho.

Por meio do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), o Governo Federal tem sido responsável por boa parte dessa compra para as escolas públicas. Somente para 2012 foi mais R$ 1,3 bilhão para a aquisição de livros didáticos com as editoras. O Governo Dilma anunciou ainda, na semana passada, mais R$ 373 milhões para o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL).

Segundo a presidente do Snel, Sônia Machado Jardim, o aumento no número de exemplares produzidos e vendidos permitiu uma economia de escala capaz de manter a tendência de queda do preço do livro, como vem acontecendo desde 2004. “Isso permitiu que o setor conquistasse novos leitores, muitos deles formados pela nova classe média, que conquistou espaço no mercado”, diz.

De acordo com Sônia, para atender esse novo público, os editores estão buscando produzir edições mais populares e buscando novos canais de comercialização. “É o conjunto desses fatores que forma um quadro favorável para o setor editorial brasileiro”, explica a presidente do Snel. (LMB)

Extraído do sítio O Povo Online

28 de abril de 2012

A DELICIOSA HISTÓRIA SOBRE A INVENÇÃO DO JOGO DO BICHO - Luiz Antonio Simas


O jogo do bicho surgiu no Rio de Janeiro em 1893. A criação da loteria popular mais famosa do Brasil se deve ao complicado contexto político daqueles tempos. A República, recentemente proclamada, tentava sepultar os resquícios da Monarquia derrubada — e desse quiproquó entre os adeptos dos regimes surgiu o jogo. Explico.

Nos tempos da Monarquia, o Barão de Drummond, eminência política do Império e amigo da família real, era fundador e proprietário do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro — que então funcionava em Vila Isabel.
A manutenção da bicharada era feita, evidentemente, com uma generosa subvenção mensal do governo, suficiente, diziam as línguas ferinas dos inimigos do Barão, para alimentar toda a fauna amazônica por pelo menos dez anos.

Quando a República foi proclamada, o velho Barão perdeu o prestígio que tinha. Perdeu, também, a mamata que lhe permitia, segundo o peculiar humor carioca, alimentar o elefante com caviar, dar champanhe francesa ao macaco e contratar manicure para o pavão.

Sem o auxílio do governo, o nosso Barão cogitou, em protesto, soltar os bichos na Rua do Ouvidor — o que, admitamos, seria espetacular — e fechar em definitivo o zoológico do Rio.

Foi aí que um mexicano, Manuel Ismael Zevada, que morava no Rio e era fã do zoológico, sugeriu a criação de uma loteria que permitisse a manutenção do estabelecimento. O Barão ficou entusiasmado com a ideia.

O frequentador que comprasse um ingresso de mil réis para o Zoo ganharia vinte mil réis se o animal desenhado no bilhete de entrada fosse o mesmo que seria exibido em um quadro horas depois. O Barão mandou pintar vinte e cinco animais e, a cada dia, um quadro subia com a imagem do bicho vitorioso.

Caríssimos, se bobear essa foi a ideia mais bem-sucedida da história do Brasil. Multidões iam ao zoológico com a única finalidade de comprar os ingressos e aguardar o sorteio do fim de tarde.

Em pouco tempo, o jogo do bicho tornou-se um hábito da cidade, como os passeios na Rua do Ouvidor, a parada no botequim, as regatas na Lagoa e o fim de semana em Paquetá. Coisa séria.

A República, que detestava o Barão, proibiu, depois de algum tempo, o jogo no zoológico. Era tarde demais.

Popularizado, o jogo espalhou-se pelas ruas, com centenas de apontadores vendendo ao povo os bilhetes com animais dadivosos. Daí para tornar-se uma mania nacional, foi um pulo. O jogo do bicho deu samba — com trocadilho.

Contei rapidamente a história da criação do jogo para constatar o seguinte: a situação atual do zoológico do Rio de Janeiro não parece ser muito diferente daqueles tempos bicudos do velho Barão de Drummond.

Dia destes, o próprio O Globo veio com uma reportagem chamando atenção para o desleixo a que o jardim está entregue em tempos recentes. Enquanto a loteria popular prosperou e virou uma espécie de instituição nacional, o zoológico não teve a mesma sorte.

O jogo, que a rigor foi criado apenas para tirar o zoológico da situação de abandono e com uma inocência digna das histórias de Polyana, a moça, chegou longe demais. Vejam, por exemplo, as atuais peripécias republicanas do bicheiro Carlinhos Cachoeira (curiosamente chamado por alguns da mídia de “empresário da contravenção”).

A inocente loteria popular ganhou asas e se transformou em uma complexa organização criminosa, com tentáculos inimagináveis que envolvem até mesmo cândidas vestais de ternos e togas do moralismo tupiniquim.

Deixo aqui a minha sugestão: já que o poder público aparentemente não dá pelota para a bicharada, confisquem as fortunas que o crime organizado amealhou em aparente conluio com os bacanas e poderosos da República.

Separem um pouquinho da grana tungada e, por justiça histórica, destinem o tutu ao carente Jardim Zoológico do Rio de Janeiro.

Uma parte do dinheiro do mafioso Cachoeira deve servir ao nobre destino de alimentar cobras, leões, passarinhos e macacos que, afinal de contas, fazem a alegria da criançada carioca em fins de semana.

A César o que é de César. Ou alguém aí sugere a criação de uma loteriazinha inocente que pode salvar o zoológico carioca desse abandono? Não recomendo.

Extraído do sítio Contexto Livre

900 OBRAS CENSURADAS PELO ESTADO NOVO PORTUGUÊS - Tiago Pacheco Ribeiro


O investigador José Brandão procedeu a um levantamento de 900 livros que acabaram censurados pelo Estado Novo.

Esta investigação começou em 2003, com uma primeira listagem de 750 obras a ser disponibilizada no sítio do mesmo – Vidas Lusófonas. Entretanto, a lista já atingiu os 900 títulos, e está agora também disponível na página do semanário Expresso online, na qual o leitor pode consultar o título, o nome do autor, a editora e a data de publicação ou proibição pela Censura.

“A poucos meses do 25 de Abril de 1974, o então ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, ordenava à polícia política para «dedicar um cuidado particular ao imediato cumprimento das seguintes instruções:»

1 - Relacionar as tipografias que se dedicam à impressão de livros suspeitos – pornográficos ou subversivos;
2 - Organizar um plano de visitas regulares a essas tipografias para impedir, efectivamente, a impressão de textos susceptíveis de proibição;
(...)
5 - Organizar a visita regular às livrarias de todo o País para sequestro de livros; revistas e cartazes suspeitos e para apreensão dos que já estão proibidos pela Direcção dos Serviços de Censura;
E como se a censura não fosse suficiente, muitas vezes a Polícia assaltava as casas dos escritores, as gráficas ou os editores levando tudo o que vinha a jeito.”

Estes são apenas alguns dos factos relacionados com a censura do Estado Novo que José Brandão tem enunciados na sua página, no texto de enquadramento de uma lista onde se podem encontrar obras dos mais variados quadrantes literários.

Dentro dos autores nacionais, o humorista José Vilhena é aquele que tem mais obras censuradas pelo regime, num total de 29 títulos. A sua mordaz sátira política, aliada ao erotismo das suas ilustrações fizeram dele dos nomes mais desprezados pelos censores. Roy Harvey - pseudónimo literário de José Ferreira Marques - (15 obras), e Tomás de Fonseca (14), republicano profundamente anti-clerical que dedicou a sua escrita a atacar os (maus) costumes religiosos do país, são os outros nomes que mais vezes se repetem na lista de José Brandão. Três nomes de uma lista que inclui ainda obras de Natália Correia, Miguel Torga, Manuel da Fonseca, Luiz Pacheco, Jorge de Sena, entre muitos outros.

A esquerda internacional, como não poderia deixar de ser, foi fortemente perseguida pelos censores, com o nome do alemão Karl Marx a surgir por 15 ocasiões na listagem. Lenine, Engels, Mao Tse-Tsung, e Leon Trotsky também não escaparam ao “lápis azul”.

Os grandes nomes da literatura e do pensamento internacional não tiveram tréguas por parte do regime. Fosse o erotismo de D.H. Lawrence; a escrita revolucionária de Jorge Amado (para os censores, "Capitães da Areia", estava carregado de uma "desbragada imoralidade", sendo "antissocial e revolucionário, essencialmente pré e pró-comunista", cita o Expresso) e Vassilis Vassilikos; o pessimismo de Dostoievsky; o humanismo de Nikos Kazantzakis; ou textos de teor político como as obras anti-fascistas de Nicos Poulantzas - e isto para citar apenas alguns exemplos -, todos acabaram por cair na lista da literatura proibída.

José Brandão explica que a lista é "composta exclusivamente por títulos de edição portuguesa não incluindo obras brasileiras ou de qualquer outra proveniência", e aquelas editadas a partir de 1933, depois de publicado o Decreto nº 22469 de 11 de abril de 1993 que instituiu "a censura prévia também aos livros".

Extraído do sítio Jornal HardMúsica